Não era um livro do García Márquez, mas havia uma crônica, um anúncio e uma morte.
A mãe de Cecília sempre dizia que cada um colhe apenas o que planta _ fato desmentido primeiramente pelo mercantilismo e continuamente jogado por terra depois do sucesso capitalista, onde se colhe o que os meeiros plantaram, se troca pela plantação vizinha e se vende para obter tudo que em sua terra não dá.
Mas o fato era simples: Cecília colheria apenas o que plantara. E, apesar de derrubada por sucessivos sistemas monetários, essa afirmativa era inexorável para era, naquele momento.
Cecília não sabia dizer não. Cecília não sabia declinar favores que lhe eram pedidos. Cecília nunca se negara a bater um bolo para a síndica do prédio, mesmo quando estava sem batedeira. Em suma: Cecília era aquela gordinha interessante, a quem todos pediam ajuda sobre alguma coisa e ela, solicitamente, retornava em positivo.
Cecília namorou um moço e outro, lá pelos vinte anos. Escolheu um com quem teve uma história maior e resolveu que aquele seria o último. Boazinha que era, Cecília sempre dizia sim: "sim, tudo está bem", "sim, eu posso fazer o assado", "sim, não vejo problemas em limpar a cozinha". A moça parecia estar sempre disposta e tentava passar a ideia de que dava conta de tudo sozinha. Era muito inteligente também: lembrava de coisas da época da escola (fala com propriedade sobre DNA mitocondrial) e de poemas que não eram declamados há anos. Bem abaixo da superfície, ela se orgulhava de ser uma enciclopédia de informações gerais, errando às vezes nalgumas capitais dos países da América Latina e, é claro, sem tino algum para informações sobre cinema ou televisão: dizia-se que gostava dos filmes do Paul Newman, e só.
O moço, assim como os outros, acabou passando. E Cecília tocava a bola para a frente, como se não se importasse. Tinha uma personalidade vivaz e, paradoxalmente, a alternava com quês de melancolia. Podia passar vários minutos contemplando o vazio, lembrando dum filme noir ou de uma canção triste d´algum lugar no passado. Chorava em trilhas sonoras de filmes de amor, em especial gostava de ouvir o John Barry, em Out of Africa e Somewhere in Time, repetidamente, quando estava triste _ quase como se precisasse de uma música tema para garantir que deveria relembrar sua tristeza de forma continuada.
Quem a julgava conhecer, nunca a conhecia. Quem a conhecia não sabia ao certo dissertar sobre o assunto.
Às vezes parecia que Cecília não queria ser conhecida. Parecia que se escondia sob um manto etéreo de uma pessoa genérica, que era satisfatoriamente boa em tudo (ou quase).
Até que ela conheceu o Jonas.
O Jonas era diferente. Ele era calmo e centrado. E ele parecia saber para onde estava indo e também parecia dizer a ela que gostaria que ela fosse também com ele, de mãos dadas.
Cecília travou. Por vezes, quis ir com ele, mas sempre com ressalvas. Ela tinha medo de que o Jonas não fosse aquilo que aparentava. Ela não conseguia encontrar um nexo causal que trouxesse o Jonas para dentro de sua vida e isso lhe incomodava tanto!
(Cecília era daquelas pessoas que precisa dar satisfação a alguma entidade que não se sabe bem qual é: família, antigos amores, vizinhos).
Finalmente, quando ela deu um jeitinho de começar a introduzir a ideia do Jonas em para seus pais (ela saíra de uma relação que deixara tantas cicatrizes, que não queria ser leviana a ponto de expor-se e mostrar a todos que conseguira se reerguer em tão pouco tempo), o moço cansou da espera.
A bem da verdade, não foi tão da espera que o Jonas cansou. O problema é que, Cecília, com seu jeitinho de sempre dizer "sim" para os outros, não conseguia ser assertiva. Não conseguia dizer exatamente o que queria, o que sentia, onde estava, emocional ou praticamente. A Cecília que o Jonas via era turva, um lago onde não se podia vislumbrar o fundo. E ele, como um barqueiro experiente, não podia suportar um lago que não lhe mostrava nada. Por vezes, quando ele a abordava sobre o assunto, Cecília fugia para dentro de si, como um caramujo. Ele era o único que se deparava com seus "nãos", eufemizados em "um dia", "quem sabe" ou "talvez". O cheiro do abismo a assustava. A possibilidade das asas lhe era aterrorizante. Ouvi dizer que ela preferiria mil vezes ter os pés fincados no chão e a cabeça nas estrelas, à possibilidade de poder largar a terra e flutuar por uns bocados. E o mais curioso é que ela não aparentava ser assim.
Um belo dia, cansado da espera e do descaso, Jonas enviou-lhe a derradeira:
"Eu, cada vez que vi você chegar,
Me fazer sorrir e me deixarDecidido, eu disse nunca maisMas, novamente estúpido proveiDesse doce amargo quando eu seiCada volta sua o que me fazVi todo o meu orgulho em sua mãoDeslizar, se espatifar no chãoVi o meu amor tratado assimMas, basta agora o que você me fezAcabe com essa droga de uma vezNão volte nunca mais pra mimMais uma vez aquiOlhando as cicatrizes desse amorEu vou ficar aquiE sei que vou chorar a mesma dorAgora eu tenho que saberO que é viver sem vocêEu, toda vez que vi você voltar,Eu pensei que fosse pra ficarE mais uma vez falei que 'sim'Mas, já depois de tanta solidãoDo fundo do meu coraçãoNão volte nunca mais pra mimMais uma vez aquiOlhando as cicatrizes desse amorEu vou ficar aquiE sei que vou chorar a mesma dorSe você me perguntar se ainda é seuTodo o meu amor, eu sei que euCertamente vou dizer que 'sim'Mas, já depois de tanta solidãoDo fundo do meu coraçãoNão volte nunca mais pra mim"
Dizem que ele só não cantou o Roberto Carlos na janela por respeito próprio; mas bem que ele queria ter feito isso, só para ela entender que a opinião pública não importava. Impotente, até o Jonas achava que nada mais adiantaria. Estava convencido de que Cecília não gostava mesmo dele e que só o estava usando como um pretexto, um passatempo, um joguete.
Ao receber a carta, a moça chorou, resignada. Ela não tinha argumentos para ir contra o que estava escrito. Ela não iria hastear uma bandeira em praça pública para gritar seu amor a plenos pulmões. Ela não fazia isso; jamais fizera antes e não seria de seu feitio começar agora.
Em vez disso, Cecília encontrou a razão de Jonas. Ele queria certezas. Ele não tinha tempo, nem coração para brincar. Ele era uma coruja, enquanto ela era uma tartaruga: arrastando-se, por mais que fizesse, sua constituição não lhe permitia ir mais rápido do que as pernas aguentavam.
Ela sabia que não deveria protelar tanto. Sabia que ele estava certo. Mais do que isso: compreendia que o que Jonas pedia não era muito; ele queria ser reconhecido. Queria que seu posto fosse ocupado de fato e de direito e publicamente. Afinal, não é isso que qualquer um pede?
Ela sabia que sim. Mas ela estava travada. Paralisada. Tentava defender-se, mas não sabia contra o que lutava. Seria si mesma? Seria o amor? Seria o medo de entregar-se à felicidade?
Silenciosamente, a gordinha entrou na cozinha, às dez da noite, para lavar as louças sujas, enquanto pensava no que sua mãe dissera, anos antes. Colheria, na solidão, o que plantara.
E não havia meeiro que se dispusesse a trocar a semente que ela mesma adquiriu...